Harmonização das aduanas e a "taxa das blusinhas"
- Lantau
- 23 de nov. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 20 de dez. de 2024
Após a realização da cĆŗpula do G20 o presidente Xi Jinping cumpriu uma agenda em BrasĆlia, segundo o Itamaraty, uma continuação da visita que Lula fez Ć China em abril de 2023 e ocorre em celebração aos 50 anos das relaƧƵes diplomĆ”ticas entre os dois paĆses.
As duas delegações, compostas por ministros de Estado do Brasil e da China, estiveram reunidos para definição de 37 acordos que posteriormente foram assinados pelos respectivos presidentes.
Entre os assuntos que possivelmente foram abordados, e um dos maiores pontos possĆveis de cooperação para as duas naƧƵes cuja relação Ć© altamente baseada na pauta comercial, estĆ” a harmonização dos sistemas aduaneiros.
A implementação de sistemas que se comuniquem de forma mais fluĆda Ć© essencial para garantir maior agilidade e transparĆŖncia no processo aduaneiro, problema que pĆ“de ser visto com clareza na questĆ£o da famigerada ātaxa das blusinhasā. Taxação de produtos chineses comprados em plataformas onlineĀ por consumidores brasileiros e as implicaƧƵes disso para as relaƧƵes bilaterais.
Histórico
Primeiro Ć© importante a realização de uma revisĆ£o histórica. O termo ātaxa das blusinhasā acabou sendo utilizado para definição, da prĆ”tica do governo brasileiro, da aplicação de taxas de importação em produtos de baixo valor agregado, principalmente itens de vestuĆ”rio (por isso o termo āblusinhasā), nos efeitos pós pandemia.
A regra anterior aos controles implementados isentava de quaisquer impostos pacotes com valores declarados inferiores Ć 50,00 USD onde, remetente e destinatĆ”rio, fossem pessoas fĆsicas. A partir do ano de 2022, passou a ser aplicada uma taxa de importação de 60% em todos os pacotes vindos do exterior, independentemente de origem, valor ou natureza das partes envolvidas (pessoas fĆsicas ou jurĆdicas).
Os novos impostos, voltados principalmente para proteção e manutenção da competitividade de produtos nacionais, acabou aumentando consideravelmente os custos ao consumidor final brasileiro, afetando a atratividade dessas plataformas.
Reconhecendo que a tendência inversa tampouco era desejÔvel, o governo brasileiro criou a plataforma Remessa Conforme, onde as plataformas online poderiam se cadastrar e usar o novo sistema para pagamento antecipado dos impostos, acelerando os processos aduaneiros na chegada dos pacotes no Brasil, a eficiência da gestão dos Correios, bem como a transparência no pagamento desses impostos por parte do consumidor. A partir de então e até os dias atuais, as plataformas cadastradas na Remessa Conforme pagam apenas 20% de taxa de importação para pacotes com valores inferiores à 50,00 USD.
Aqui Ć© importante ressaltar que, em nenhum momento, essas medidas foram direcionadas aos produtos chineses por conta do paĆs de origem, sendo medidas pĆŗblicas com motivaƧƵes puramente econĆ“micas e nĆ£o de carĆ”ter polĆtico.
O impacto das novas taxas.
O mais óbvio e previsĆvel impacto da implementação dessas taxas nos produtos comprados nas plataformas eletrĆ“nicas, foi a diminuição no volume total de compras, conforme Ćndice abaixo:

Embora a implementação da plataforma Remessa Conforme tenha auxiliado na recuperação da queda pós implementação das taxas, os nĆveis nĆ£o voltaram aos vistos antes de 2022. No outro lado da balanƧa, dado uma demanda constante pelos mesmos produtos do lado do consumidor, houve um aumento da competitividade dos produtos Made In Brazil, cujos produtores tambĆ©m aprenderam e sofisticaram suas presenƧas nas plataformas de comĆ©rcio eletrĆ“nico durante a pandemia da COVID-19.
O outro impacto sentido foi, logicamente, um aumento no nĆvel de arrecadação por parte da Receita Federal que acaba passando a receber 20% em cima de mercadorias que antes eram isentas de qualquer tributação. Vale ressaltar que alĆ©m do imposto sobre importação, os pacotes vindos do exterior ainda estĆ£o sujeitos Ć tributação de ICMS no nĆvel estadual, e ambas as taxas incidem sobre o valor no produto no Brasil, ou seja, incluĆdos o frete e seguro em cima do valor original da mercadoria.
Porque isso importa para a China.
Ć verdade que os volumes movimentados pelo comĆ©rcio eletrĆ“nico nĆ£o podem ser comparados com as grandes operaƧƵes que acontecem entre Brasil e China no Ć¢mbito do agronegócio por exemplo, mas elas sĆ£o um reflexo de uma preocupação muito presente nas discussƵes internas do governo chinĆŖs sobre a criação e fomentação de mercados no exterior para a produção domĆ©stica. Com a economia chinesa em estado de desaceleração, mas ainda mantendo uma grande dependĆŖncia com o setor manufatureiro, ainda responsĆ”vel pelo emprego de milhƵes de chineses, principalmente em Ć”reas fora dos grandes centros urbanos, manter o bom desempenho dessas indĆŗstrias Ć© imprescindĆvel para o avanƧo futuro da economia chinesa como um todo. Sob o cenĆ”rio de um mercado domĆ©stico aquĆ©m do desejado, os mercados externos sĆ£o a solução óbvia para escoamento dessa produção, e o Brasil aparece como um dos grandes mercados consumidores do mundo.
A segunda razĆ£o para explicar o motivo por trĆ”s da importĆ¢ncia dessas taxas Ć© de natureza polĆtica: a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. A confirmação da volta do republicano Ć Casa Branca, traz Ć tona a Ć©poca mais radical das guerras comerciais entre chineses e americanos. Embora as polĆticas econĆ“micas contra a China tenham comeƧado no governo de Barack Obama e mantidas no governo de Joe Biden, Trump acabou ficando marcado como o tough guyĀ quando o assunto era China, e isso nĆ£o deve ser diferente no novo mandato dado que a ameaƧa chinesa talvez um dos poucos, senĆ£o o Ćŗnico, assunto em que republicanos e democratas sĆ£o capazes de atingir um consenso. Na perspectiva de um futuro aumento de pressƵes econĆ“micas em cima do paĆs, o fortalecimento de laƧos com parceiros alternativos, que possam amenizar esses impactos, tende a assumir um papel central nas discussƵes bilaterais.
Perspectivas.
Voltando ao âmbito da aproximação da cúpula do G20 e visita de Estado por parte do Presidente Xi Jinping ao Brasil, é justo assumir que o fortalecimento dos laços econÓmicos é de interesse de ambas as partes.
O Memorando de Entendimento (MOU na sigla em inglĆŖs) assinado em setembro desse ano jĆ” traz iniciativas importantes nesse sentido, como o reconhecimento mĆŗtuo de operadores econĆ“micos, troca de informaƧƵes logĆsticas e declaraƧƵes aduaneiras e compartilhamento de certificados.
O aumento do nĆvel de incerteza com a eleição de Donald Trump e os fatores presentes no cenĆ”rio internacional anteriormente, deve empurrar Brasil e China para um fortalecimento da parceria no Ć¢mbito econĆ“mico, o que Ć© de interesse de todos.
ReferĆŖncias:


